Poeta Abraão Marinho
Fracassado não é aquele que perdeu uma luta, mas aquele que desistiu da guerra.
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O HOMEM QUE ASSOBIA
 
“Um dia, eu estava a caminhar pelas calçadas de um bairro deserto, minhas sombras vagavam friamente, seguindo-me, descompassadas. Voltava de uma festa na casa de um amigo, era meia noite. No início, senti que era observado, mas não tinha ninguém; a cada passo dado era como se tivesse uma respiração ofegante em meu pescoço, algo me dizia para não olhar para trás...”
            O telefone tocou:
            − Oi cara, como vai?
            − Mano, vai ter uma festa amanhã aqui em casa pra comemorar meu aniversário, vai ter muita gatinha, é sua chance.
            − Porra cara, tô ocupado estudando para os exames.
            − Que nada, vem logo mano, vai ter muita comida (literalmente), se é que me entende.
            − Está bem, vou ver aqui se consigo ir.
            − Qualquer coisa te pegou aí, brother.
O telefone desligou, e Henrique voltou para seu computador, pesquisava sobre a segunda guerra mundial e alguns de seus detalhes; quando chegou uma mensagem no seu celular, de sua amiga Clarice:
            − Preciso que você venha aqui em casa.
            − O que aconteceu?
            − Urgente!
Henrique rapidamente saiu de sua casa e, correndo, foi ver o que acontecia com sua amiga. Chegando em sua casa, bateu na porta, mas ninguém atendeu. Mais algumas tentativas, até que ela se abriu sozinha; estava um silêncio, ninguém parecia estar ali, uma leve neblina fazia parte da atmosfera do lugar, porém, nem sinal de Clarice.
            “Clarice? Clarice? Cadê você? ” – E nada de resposta. Subiu as escadas lentamente, quando ouviu um leve assobio, vinha de um quarto escuro. Ao ligar a luz, percebeu que um notebook estava sobre a mesa, e um papel que dizia ‘Ligue-o’. O que o fez. Inicialmente, achou que fosse brincadeira de Clarice, aliás, ela já tinha o enganado inúmeras vezes. Quando ligou, uma pasta fora aberta com três vídeos, intitulados: vídeo 1, 2 e 3.
            Quando ele abriu o primeiro, uma escuridão tomava conta da tela e o mesmo assobio podia ser notado, porém ia se intensificando. Algumas imagens passavam, em uma espécie de floresta obscura, e ao fundo podia ser notada uma figura um pouco apagada. Enquanto o assobio se intensificava, a imagem se aproximava, mostrando o esboço de um homem em forma de bode. Quando estava bem próximo, o homem se moveu, fazendo com que sua imagem sumisse, e assim terminava.
            No segundo, a atmosfera era mais sombria ainda, mostrava o homem agachado perto de uma árvore, parecia comer algo. A câmera pareceu se aproximar, com um pouco de luz, mostrou rastros de sangue; mudou o ângulo, e a criatura estava se alimentando das vísceras de um menino, que parecia ter oito anos. Ao terminar, levantou a cabeça lentamente e fixou seus olhos na imagem. O vídeo parou.
            Com os olhos arregalados, Henrique viu que o terceiro vídeo fora renomeado para ‘Não assista’. Apesar de achar estranho, sua curiosidade foi aguçada para o que poderia conter ali. O vídeo demorou dez segundos para abrir, e apenas uma tela preta fora vista, uma voz sinistra dizia: “Você acaba de liberar uma maldição, cuidado para não ser pego pelo Homem que assobia. Quando você o ouvir, tente ignorá-lo e não olhe para trás. Se você ficar com medo, sentirá uma presença cada vez mais próxima, até tocá-lo, e você olhar para trás. O homem irá te pegar, comer seu coração e suas vísceras, e finalmente roubar sua alma”. Quando a mensagem terminou, o assobio soou, fazendo com que Henrique fechasse violentamente o notebook.
            Quando ia se virando para ir embora, Clarice o assustou:
            − Caramba, quase morri de susto!
            − Essa foi boa, não foi? Recebi pelo Telegram.
            − Mas como assim? Tem morte nesse vídeo, não é crime?
            − Que nada, isso é lenda urbana barata para fazer medo.
            − Então você pediu para eu vir aqui só para dar um susto desses?
            − Sim, foi mal, não podia perder a oportunidade.
            − Eu estava estudando para o exame, vai ser importante.
            − Ah, bom. Então vamos estudar por aqui, meus pais só voltam à noite mesmo, vamos aproveitar esse resto de domingo.
Então, Henrique continuou a estudar, e Clarice contava algumas lendas urbanas que sempre assustava todo mundo, mas que todos sabiam que era absurdo. Quando ia anoitecendo, ele foi para sua casa, tomou um banho, jantou e foi para cama. Pegou seu caderno de anotações, e escreveu algo, inclusive confessou seu confuso interesse pelo sorriso de Clarice, que o fazia se sentir bem, e de seu olhar cada vez mais brilhante. Era ruim demais o fato de não ter coragem de contar a verdade, e tudo se resumir a uma simples amizade, algo que sempre o fazia perder a calma.
            Assistiu alguns vídeos de fatos históricos, e em instantes pegou no sono. Sentiu seu corpo no ar, estava em um lugar desconhecido, sempre com uma atmosfera escura e com muita neblina. Parecia estar fugindo de algo, uma sensação de perseguição, apenas uma sombra podia ser vista, foi quando ele parou, ajoelhou-se, e repetiu inúmeras vezes: Não olhe para trás, não olhe para trás, não olhe para trás. No momento, um assobio familiar, o homem vinha com passos estrondosos, e quando o tocou, um choque forte em seu corpo fez com que acordasse abruptamente, como um susto que se tem ao imaginar que se está caindo de uma altura muito grande.
            Henrique estava soado e tremendo. Uma mensagem de Clarice recebida. Era uma hora da madrugada.
            − Henrique, você está aí?
Com os olhos entreabertos, assustou-se com essa mensagem já tarde da noite, pois não lhe era comum.
            − Oi, o que houve?
            − Estou com medo, sinto-me observada, parece que alguém está me olhando pela janela.
            − Como assim? Você já viu se não é nenhum ladrão?
            − Sim, já olhei por toda casa, e quando voltei para o quarto, vi que tinha uma sombra nos fundos do quintal, os olhos pareciam vermelhos e olhavam diretamente para mim, mesmo eu estando escondida por detrás das cortinas.
            − Ah, você está brincando comigo, só pode!
            − Não, não estou! Vem aqui em casa, por favor!
            Henrique estava com sono, então sua vista apagou. Nem se importou muito, pois já tinha sido enganado muito nas brincadeiras de Clarice.
            O celular tocou novamente, era seu amigo.
            − E aí cara, vem hoje? – Henrique confirmou sem nem ter noção, pois estava consumido pelo sono, parecia mais cansado que o normal.
Acordou-se pela manhã atrasado, arrumou-se rapidamente e foi para escola, esquecendo-se do celular. Passando pelo portão, entrou em sua sala enquanto o professor fazia a chamada, notou que Clarice não teria ido à aula (mas nada de incomum, ela sempre faltava dia de segunda).
            Quando iria mandar uma mensagem para Clarice, pois ela havia perdido o exame, viu que tinha esquecido o celular em casa. Mais um dia de aula se passou, a prova fora feita, e em caminho para casa, Henrique sentiu uma sensação estranha, passando pelo beco de atalho para a rua de sua casa, ouviu o assobio bem no fundo, parecendo distante. Suas mãos ficaram frias, e seus olhos ficaram arregalados, não desviando para nenhum canto. Foi quando no fim do beco, o assobio parou e não tinha ninguém atrás dele.
            Chegando em casa, subiu ao seu quarto, e quando viu seu celular, para sua surpresa haviam cinquenta chamadas perdidas de Clarice mais seis mensagens, com uma sequência macabra:
            − Ele está me observando agora, eu estou sentindo.
            − Está se aproximando cada vez mais daqui, vem aqui, por favor!
            − Não dorme agora, estou com muito medo!
            − Ele abriu a porta e está procurando por todos os cantos da casa.
            − Estou escondida no guarda-roupa, ele gritou que sentia o cheiro do medo, e que iria roubar minha alma.
Depois disso, nenhuma mensagem a mais, seu visto por último era às quatro horas da madrugada. Henrique foi desesperado para a casa de Clarice, como se não houvesse ninguém à sua frente, foi como um louco. Chegando lá, ela estava sentada na varanda da casa, com o olhar distante.
− Você está bem?
− Estou.
− Aquilo de ontem foi real?
− Não, eu estava brincando novamente. Vá embora, por favor.
− Mas...
− Eu não quero te fazer mal. Vá embora!
Henrique não entedia o que estava acontecendo, mas presumia que ela estava magoada com ele por não a ter ajudado, mesmo sendo uma hipótese. No entanto, andou um pouco triste até sua casa, a hora da festa estava chegando, e o melhor no momento seria ir se divertir um pouco, já que sua amiga o tratara daquela forma.
Enquanto as águas caíam em sua cabeça na hora do banho, Henrique, mesmo mal, pensava em uma distração naquela noite, tentava não mentalizar aquele assobio e homem horríveis que lhe foram base de pesadelo. Arrumou-se e ligou para seu amigo ir pegá-lo.
Não demorou muito tempo para um carro buscá-lo em sua casa, seus pais lhe determinaram o horário de até duas horas da manhã para voltar. Assim, a noite estava apenas começando.
− Preparado para perder a virgindade? Fingindo que estava tudo bem, Henrique apenas balançou a cabeça, respondendo sim.
Chegando à festa, todo canto estava rodeado por garotas sensuais, porém Henrique apenas conseguia pensar em Clarice. O amigo apenas o apresentou a uma loira que, sorridente, interessou-se pelo jovem nerd. Em vez de bolo, apenas bebidas, Henrique sentia-se desconfortável, não parecia adequado para ele.
            Sentado em um sofá, presenciara toda a promiscuidade de um adolescente, mas a moça loira ficava o olhando fixamente com olhar de desejo. Até que sentou do seu lado, colocando a mão em suas pernas.
            − O que um jovem nerd faz por aqui?
            − Fui convidado pelo Brian.
            − Todos nós fomos né, bobinho?
Sem saber o que fazer, Henrique apenas sorria sem jeito, mas Clarice sempre ficava em primeiro plano, imaginara ele como ela estava, como se sentira, e afins.
            − Quer saber? É excitante a forma que você se faz de inocente!
            − Como assim?
A moça deu um riso que demonstrava sua saliência. De longe, Brian ofereceu seu quarto para os dois, ela então puxou Henrique para o quarto acima. Chegando lá, o beijou, mas ele imaginou estar beijando Clarice, como de costume. Começou a tirar as roupas, seus seios bem desenhados despertavam o desejo do rapaz, que imaginava ser de sua amiga. Deitou-se na cama e sentia uma leve unha arranhar sua perna, subindo e subindo, quando avistou o olhar pálido de desejo da moça, que lhe engolia.
            Fechou os olhos lentamente, um momento de distração, quando os abriu, era Clarice ali, e o ápice do prazer chegou, tudo em calma, quando o rosto da moça desfigurou e aranhas começaram a sair de seus olhos em meio ao sangue, suas unhas acorrentaram suas mãos. De um estrondoso grito dado, tudo voltou ao normal, e a moça não entendeu nada. O relógio marcava onze e cinquenta e seis, Henrique pediu desculpa e foi embora do quarto, desceu as escadas e despediu-se de Brian.
            Um dia, eu estava a caminhar pelas calçadas de um bairro deserto, minhas sombras vagavam friamente, seguindo-me, descompassadas. Voltava de uma festa na casa de um amigo, era meia noite. No início, senti que era observado, mas não tinha ninguém; a cada passo dado era como se tivesse uma respiração ofegante em meu pescoço, algo me dizia para não olhar para trás, apenas queria muito chegar à casa de Clarice.
            Cada minuto que passava era uma eternidade, uma tortura. Então ouvi aquele assobio macabro, mas não olhei para trás. Ao chegar à casa de Clarice, bati na porta, mas ninguém parecia estar ali, o carro de seus pais também não estava, o que poderia representar que não estavam ali. Entrei na casa, uma escuridão tremenda, apenas um feixe de luz que vinha da lareira. “Clarice? Você está aí? ” – Perguntei inúmeras vezes, mas nada acontecia, ninguém respondia.
            Algum número desconhecido me ligou, ao atender, era uma videochamada. Era estranho, pois tudo estava escuro por um momento, até que apareceu uma lareira, e apareci ali, um pouco distante. Alguém estava dentro da casa. O assobio parecia vir de longe, mas vinha do celular que havia me ligado. A imagem foi movimentando-se lentamente, mas eu não conseguia ver nada! As luzes acendiam e apagavam-se, e a cada vez que poda ver algo, uma sombra ficava cada vez mais próxima, assim como a imagem da videochamada, o pior era que não dava para desligar.
            Um último feixe de luz foi sentido, a imagem estava atrás de mim, joguei o celular no chão e fechei bem os olhos, encolhi-me. Foi quando ouvi um choro feminino, parecia ser de Clarice, vinha do porão. Fui correndo, assustado, desci lentamente as escadas, parecia uma sala com um pouco de iluminação que não era tão boa. Foi quando vi a pior cena da minha vida, o homem em forma de bode sorria macabramente, e Clarice estava em sua cela, chorando, já sem tantas lágrimas.
            Os pais de Clarice estavam sem os seus membros, e os olhos de seu pai olhavam fixamente nos meus. Fiquei aterrorizado, não sabia o que fazer. O homem aprisionou a mim e à Clarice, o pior é que se tratava de um psicopata que tivera feito um pacto. Dias se passaram, estávamos sem comida, éramos torturados, Clarice tinha em um esconderijo apenas uma faca. Declarei-me para ela ali naquela prisão uma semana depois, e ela disse que também gostava de mim, e que inventava certas coisas para se aproximar.
            Mais dias foram se passando, o homem bode sempre dormira à meia noite em ponto, sempre com seu assobio macabro. Consegui sair daquela prisão, e enfiei-lhe a faca no coração, a única forma de matar o monstro, com todas as minhas forças. Um grito muito alto fora dado, era a mãe de Clarice; na verdade essa facada era em seu coração, matei-a no mesmo instante. Eu a amava, mas não soube explicar para a polícia e para todos que sou inocente, nem tinha como. Sinto-me no dever de escrever esta carta antes de ser condenado à morte amanhã. Nunca olhe para trás!
 
Itacoatiara-AM, 25 de janeiro de 2020.
Abraão Marinho
Enviado por Abraão Marinho em 25/01/2020


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