Poeta Abraão Marinho
Fracassado não é aquele que perdeu uma luta, mas aquele que desistiu da guerra.
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O MUNDO PARALELO

Empalidecido sobre a noite, a madrugava soava seu pranto, os trovões ressoavam no horizonte, e um raio acordou-me; assustado, levantei rapidamente e um intenso frio tomou conta de meu corpo, estava escuro, olhei pela janela e os raios estavam a cair no horizonte. Quando olhei para trás, enquanto um trovão estava a iluminar meu quarto, avistei-me na cama a dormir.
Meus olhos, ainda entreabertos de sono se arregalaram, tentei ligar as luzes para ver se não estava ainda sonhando, elas não ligavam, estava sem energia na casa (ao menos era o que eu tinha achado no momento). Como eu teria saído de meu corpo? Ele estava ali, calmo, como se nada estivesse acontecendo, porém inanimado, seria eu um espírito? Abri a porta e tudo parecia diferente, o corredor da casa estava obscuro, e uma pequena névoa pairava sobre tudo, andei um pouco em direção às escadas, foi quando ouvi uma música soar em baixo, desci rapidamente as escadas, e tinha pessoas que eu nem conhecia sentadas no sofá, um senhor estava com uma xícara na mão, uma senhora estava o olhando como se estivessem a conversar, uma moça mais nova estava olhando para o nada; todos estavam parados (pareciam bonecos de cera) e a música continuava a tocar de maneira assustadora.
Tudo muito estranho, pareciam não me enxergar; fui em direção à porta da casa, que parecia estar com uma luz entrelaçada a ela, uma luz de led vermelha, fui calmamente, quando a abri, não reconheci mais o lugar onde vivia, não haviam mais casas, nem uma rua, era um absoluto deserto de escuridão, eu estava com uma antiga luminária nas mãos, tentei avistar algo lá fora, mas conseguia ouvir gritos de pessoas por socorro, corri de volta à casa.
Quando entrei de volta na casa, não havia mais ninguém no sofá, ouvi um barulho de tiro muito forte vindo do quarto, corri para ver o que teria acontecido, subi às escadas, e no quarto ao lado do meu (que estava vazio), dois corpos estavam estirados na cama, cheios de sangue, e a moça que estava toda revestida do sangue da morte, olhou para mim e sorriu com prazer, e paralisou o seu rosto, olhos negros, estava vestida de branco e no seu sorriso macabro estava a maldade, me assustei demais, e fiquei a pensar que apenas era o meu pior pesadelo.
Ouvi um assobio vindo um pouco distante, andei lentamente, enquanto passava pelos cômodos da casa eu via muitas pessoas paralisadas com o mesmo sorriso da mulher assassina, isso me assustou muito, uma criança de apenas onze anos, que nunca tinha visto nada daquilo. Percebi que o assobio levava ao quarto de meus pais, a escuridão tomava toda a casa, apenas a pouca luz da luminária me guiava, juntamente ao assobio, assustador e grave.
Ao chegar mais próximo o som ia se intensificando, até que parou quando eu estava parado na porta do quarto, a abri lentamente e fiquei petrificado; não sei o que era aquilo, mas era muito alto, suas mãos eram deformadas e seus dedos eram compridos, seus olhos eram vermelhos e seu corpo era curvado, usava um manto negro, e quando percebeu que eu estava a olhar apontou para meus pais que estavam dormindo e uma mensagem foi escrita na parede: eles serão meus escravos.
Neste momento eu corri, totalmente aterrorizado, e aquele monstro foi atrás de mim, seus passos eram estrondosos e rápidos, e a cada passo seu o chão estremecia, sua voz dizia: eu vou te buscar primeiro, você irá voltar aqui! Eu apenas corri para meu quarto, me joguei na cama, e senti uma viagem completamente louca, apenas lembro que pulei como se fosse um susto, e acordei com falta de ar, era dia e tudo tinha voltado ao normal.
Corri à janela, e o dia estava a amanhecer, o canto dos pássaros era um alívio ao saber que eu tinha saído daquele lugar sombrio. Minha mãe entrou no quarto e me chamou para a refeição do dia, tudo ocorreu bem no dia, apenas desenhei tudo o que supostamente tinha sonhado; contei à minha mãe e ao meu pai, mas nenhum dos dois acreditou, como acreditariam? Mostrei-lhes os desenhos, mas nada fizeram, disseram que era apenas um pesadelo, que era normal, e coisas do tipo; tudo bem, eu deveria ter acreditado nisto o tempo todo, o dia era bom, mas a noite chegava e acabava com a paz, e com minha infância.
Aquele monstro me perseguiu por muito tempo, comecei a perceber que ele até conseguia interferir em meu mundo, aparecia para mim na escola, em casa, uma vez ouvi um sussurro bem distante, que dizia: estou indo te pegar! Eu não sabia o que fazer, não tinha amigos, ninguém me ouvia, meus desenhos ficavam cada vez mais claros, mas a solidão começava a fazer parte de minha personalidade, o que facilitou muito.
Mudei drasticamente, tornei-me introvertido, e a todo momento a imagem do monstro não saía de minha cabeça, a noite chegou, e eu não queria dormir, mas não tinha como, não tinha como passar mais de dois dias sem dormir, o que eu já havia passado. Pior, naquele dia saí mais rápido de meu corpo, me sentia cada vez mais dependente (mesmo não querendo) daquele lugar, vi que nos cantos do quarto tinha uma menina chorando, ela, de costas disse com sua voz doce: não podemos sair daqui, ele sabe de tudo, ele ouve tudo, e a cada vez que nos deixa dependente deste lugar, consegue interferir cada vez mais em nosso mundo, eu já estou presa aqui, não consigo voltar para meu corpo; fui acalmá-la, toquei em seus ombros e fiz um carinho e disse que isso iria passar, sua voz mudou repentinamente, e disse: você nunca mais irá sair daqui! Seu corpo mudou de forma e se transformou naquele monstro que apenas estava a me esperar esta noite. Não preciso dizer o tanto que sofri, e como estou prisioneiro neste momento, agora, faz um ano que estou neste sofrimento, meu corpo está inanimado, sem vida, em coma, já deixei várias pistas nos desenhos, no que deixei escrito, mas ninguém parece querer acreditar que estou preso em um mundo paralelo, aqui sou triste, sou escravo, tudo de ruim acontece, ouço gritos de socorro toda hora, e aquele monstro fica nos observando, seu objetivo é interferir no outro mundo a ponto de mandar um de seus servos para o outro lado viver no corpo de um dos prisioneiros, e está quase conseguindo.
Nada pode ser pior que isto, o que consigo fazer está resumido à lágrima, aquele riso macabro dele me tira todas as esperanças. Quem irá me achar aqui? Quem poderá interpretar o que desenhei? Perguntas que provavelmente nunca serão correspondidas, talvez enterrem meu corpo depois de muito tempo sem respostas, assim eu serei um prisioneiro eterno sem nunca ter feito nada de errado, enquanto o monstro, o líder de tudo se alimenta da alma de suas vítimas.
 
Itacoatiara-AM, 19 de outubro de 2019.

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Abraão Marinho
Enviado por Abraão Marinho em 19/10/2019
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